GAFAnomics Resultados [4º trimestre de 2020]

18 de Fev 2021

Neste GAFAnomics Resultados fazemos uma análise aos resultados do 4º trimestre de 2020 e aos principais movimentos estratégicos das empresas que lideram a Nova Economia. 

Nesta edição, exploramos como a Nova Economia preparou o caminho para as novas regras de criação de valor, analisamos as grandes empresas tecnológicas e as suas estratégias de desenvolvimento. 

  • 2020, o tsunami dos gigantes tecnológicos
  • Regulação: a necessidade urgente de reequilibrar o sector das Big Tech

 

 

“Algumas tendências que já tínhamos identificado em edições anteriores do GAFAnomics: Quarterly evidenciaram-se neste trimestre: software e ESG (fatores ambientais, sociais e de governança) estão a ‘engolir’ o mundo.

Em 2020, os modelos tecnológicos voltaram a ultrapassar um marco em termos de valorização tanto absoluta como relativa. Os desafios da RSE (responsabilidade social das empresas) também têm sido um fator de valorização, e esta é uma boa notícia e um fator que também justifica o desempenho: a revalorização do setor dos veículos eléctricos, impulsionada pelo forte desempenho da Tesla e os anunciados investimentos da Baidu e da Tencent, mas também a depreciação do Facebook que começa a cristalizar o facto de que a ética se está a tornar um fator de diferenciação.

Chegámos a um momento tenso, com modelos tecnológicos que continuam a expandir as suas posições quase exponencialmente, confiando tanto na considerável margem de manobra financeira como nos principais ativos dos seus modelos, quebrando as condições de sã concorrência. Isto reforça a necessidade de recriar um campo de jogo para novos modelos”.

Axelle Ricour-Dumas, Managing Director – Corporate Strategy na Fabernovel

 

Último trimestre de 2020 pela lente da Fabernovel

Bom desempenho em bolsa dos players no Índice da Fabernovel

Em bolsa, os 20 gigantes tecnológicos analisados no Índice da Fabernovel* geraram 1.668 mil milhões de dólares em capitalização só no último trimestre, o equivalente a criar uma empresa do tamanho da Amazon em apenas três meses. Entre estes players, vários capitalizaram, incluindo a Tesla que duplicou a capitalização num trimestre (+102%).

Estes desempenhos refletem-se também a nível financeiro, uma vez que, apesar de um ano difícil, estas empresas têm, em média, um crescimento de 25% nas vendas e um crescimento de 18% no fluxo de caixa, em comparação com o último trimestre de 2019. Todos eles têm sido mais rentáveis, com um crescimento impressionante de 44% em média no lucro operacional.

No top: Baidu e a Internet chinesa revalorizada pelos analistas

A Baidu, conhecida como a “Google” chinesa, quase duplicou o valor da ação num trimestre, apresentando não só bons resultados (+165% do EBITDA), como também um anúncio estratégico de uma parceria no mercado dos veículos elétricos com a empresa chinesa Geely. Evidencia-se também uma subvalorização do mercado chinês da Internet, antecipando-se, em particular, um crescimento no setor da publicidade online, no início de 2021, que parece ter sido bem recebido pelos investidores.

A surpresa: Uber mantém-se atraente para os investidores

Para a Uber, a pandemia teve um impacto maior do que aquele que era esperado pelos analistas. O desempenho foi fraco no último trimestre, registando uma queda de 16% nas receitas, comparando com 2019 (-8% do que era esperado). As entregas ao domicílio da Uber Eats ajudaram a “amortecer” a queda, representando 35% das receitas da Uber (em 2019 representou 19%). Mas apesar de continuar a perder dinheiro, aproxima-se lentamente da rentabilidade, reduzindo a sua perda líquida de 8,51 mil milhões de dólares em 2019 para 6,77 mil milhões de dólares em 2020. De facto, o valor da ação cresceu 50% no último trimestre, mostrando que os investidores continuam a ter confiança na empresa. 

O flop: a depreciação do Facebook 

Apesar dos bons resultados do Facebook neste trimestre, a empresa está a acumular polémicas preocupantes. A guerra com a Apple devido às alterações na política de recolha de dados pessoais nos dispositivos Apple ou a decisão de banir Donald Trump da sua plataforma, conduziu a uma fase de boicote ao Facebook e às recentes preocupações éticas. Embora continue a ter uma das maiores capitalizações bolsistas do mundo, os investidores já não estão tão interessados como estavam no passado. O valor da ação da empresa não subiu nos últimos 6 meses, apesar dos bons resultados. 


O tsunami dos gigantes tecnológicos em 2020

O ano 2020 ilustrou, mais do que nunca, a importância dos gigantes da indústria tecnológica. 45 minutos de inactividade do Google foram suficientes para mostrar a hiper-utilidade dos seus serviços e o seu grau de dependência dos utilizadores. Embora a maioria dos países europeus tenha encorajado os seus cidadãos a apoiar as empresas locais, as medidas sanitárias e de saúde beneficiaram intervenientes como a Amazon. 2020 foi o melhor ano até agora da Amazon, em termos de desempenho financeiro, e foi capaz de jogar com a diversidade dos seus produtos, entrega e rapidez de adaptação. Os poderes destas empresas ficaram fora do controlo das autoridades. A prova disto pode ser vista nos tweets de Elon Musk, que tomou a liberdade de afirmar que o valor da ação da Tesla é demasiado elevado e de fazer outros tweets contra a Reserva Federal. Outro exemplo é o da Google, da Amazon e da Apple, que decidiram por iniciativa própria bloquear a aplicação Parler, e do Twitter e do Facebook que bloquearam Donald Trump. 

Embora a indústria tradicional tenha sido afetada pela pandemia (crescimento de 0% das vendas em 2019-2020 para as empresas no NYSE e no SBF 120 francês, em média), os gigantes da tecnologia conseguiram manter uma taxa de crescimento muito elevada: 23% de aumento nas vendas (contra +18% em 2019), e um aumento de +27% nos lucros antes de impostos (EBITDA) (contra 16% em 2019).

O Índice da Fabernovel do GAFAnomics: Quarterly mostra que estas 20 empresas registaram um crescimento médio de 71% na capitalização de mercado em relação a 2019. “As capitalizações dos gigantes atingiram o seu auge em 2020. Só a Apple vale o equivalente a todas as empresas do CAC 40 juntas. Os GAFA (Google, Apple, Facebook e Amazon) são equivalentes a quase três vezes a capitalização do CAC 40. Estes resultados ilustram a anti-fragilidade face à pandemia e a capacidade de adaptação destes gigantes face às restrições”, explica Jérémy Taïeb, Analista Financeiro na Fabernovel. 

 A urgência de reequilibrar as Big Tech

No espaço de 20 anos, as Big Tech tornaram-se as empresas mais poderosas: 8 em cada 10 das empresas com maior capitalização do mundo em 2020 são empresas tecnológicas. Mas, nos últimos anos, tem havido uma consciência crescente deste poder e dos seus excessos, não só por parte dos consumidores, mas também por parte dos reguladores que têm punido certos abusos. Esta dinâmica está agora a levar a um desejo de repensar o quadro regulamentar das plataformas digitais de uma forma mais global. 

Para regular eficazmente e recriar um ecossistema competitivo saudável, é necessário compreender plenamente o modelo das Big Tech e as suas estratégias complexas, construídas em torno dos seus laços de valor, baseados em interconexões e pontes entre as suas diferentes atividades. São estas estratégias que, levadas ao extremo, levaram a alguns abusos e posições dominantes. Este estudo torna possível decifrar cinco ilustrações: 

  • Interligações cada vez mais estreitas entre as actividades 

Por exemplo, a Amazon levou ao extremo as interligações entre as suas atividades, através da oferta Amazon Prime, incluindo o Prime Video, que funciona como um produto de atração e que faz parte de um loop de valor para atrair e redireccionar novos clientes para a sua plataforma de e-commerce. E com as receitas e lucros do e-commerce investe no financiamento das produções de vídeo para o Amazon Prime, que ainda apresenta prejuízo. Isto cria uma vantagem competitiva injusta sobre os serviços de streaming que têm de alcançar rentabilidade per si e dificilmente podem competir com o investimento da Amazon em conteúdos (7 mil milhões de dólares em 2020).

  • Do acesso exclusivo aos dados à retenção de informação 

O acesso da Google aos dados, mas sobretudo a recolha e retenção de dados dos seus parceiros, consolidou a sua posição como gatekeeper: incontornável para os anunciantes. Em França, a força do Google permite-lhe ditar as regras do mercado publicitário, fazendo baixar os preços, aproveitando a sua capacidade de negociar sozinho face a um mercado fragmentado de mais de 285 títulos de imprensa.

  • Uma posição dominante na distribuição das aplicações

Quanto à Apple, é a única forma de distribuir as quase 2 milhões de aplicações desenvolvidas pelo seu ecossistema no seu sistema operativo iOS.  A Apple confia nesta posição de gatekeeper para definir unilateralmente as suas próprias políticas de preços e termos e condições. Assim, a Apple tem total poder de decisão sobre a percentagem fixa de comissão, capturando a maior parte do valor, enquanto alguns mercados estão assim a assistir a uma erosão das suas margens: por exemplo, as margens da indústria de videojogos, que foram reduzidas para metade em menos de 10 anos.

  • Desde a construção de um ecossistema até um fenómeno de concentração

Através de aquisições como a do Instagram e do WhatsApp, o Facebook reforçou a sua posição como líder de mercado, tornando-se um must com os seus 2,7 mil milhões de utilizadores mensais ativos. O Facebook construiu o seu ecossistema através de aquisições (92 aquisições de empresas contra uma média de 24 para empresas S&P 500). Estas aquisições de concorrentes estabelecidos, que já não eram startups, equivalem a assumir as capacidades de inovação de um mercado e a criar barreiras significativas para os concorrentes. Esta posição permite ao Facebook ditar os seus termos, tanto para os seus utilizadores como para os anunciantes.

  • Tirar partido de um ecossistema forte de serviços 

A ferramenta de comunicação interna para empresas Slack é vendida como um serviço autónomo (6,67 dólares por utilizador), quando a Microsoft oferece uma solução concorrente integrada no pacote de serviços Office 365 por menos de 5 dólares por utilizador.  Sem este Office Suite, seria improvável que o Microsoft Teams tivesse crescido duas vezes mais depressa do que o Slack. É difícil para os concorrentes competir com uma base de 200 milhões de utilizadores ativos mensais e com a velocidade destes modelos, apesar das características e benefícios de uma aplicação individual, como atesta a aquisição do Slack pela Salesforce. 

 

“A regulamentação deve ter por objetivo estabelecer limites aos GAFA, preservando simultaneamente o seu poder de inovação e a sua capacidade de criar valor para as empresas e utilizadores. Atualmente, a concentração de poder dos GAFA e a sua velocidade está a ter um efeito que está a pôr em perigo os outros players. Isto implica corrigir os excessos atuais, mas também pensar num quadro regulamentar capaz de antecipar os desenvolvimentos futuros destes gigantes da economia digital”, explica Gabrielle Peyrelongue, Analista na Fabernovel. 

 

“A regulamentação não só poderá conseguir inverter a tendência atual, mas também poderá estimular o surgimento de fortes players europeus. É necessário ser proativo e implementar planos industriais europeus para estimular e fomentar a inovação, através da interoperabilidade das cadeias de abastecimento ou da modernização dos circuitos de valor e das infraestruturas locais. As empresas devem unir forças e criar alianças para colaborar mais equitativamente com os GAFA, mas também desafiá-las e propor alternativas europeias” conclui Axelle Ricour-Dumas, Managing Director – Corporate Strategy na Fabernovel. 

 

*Empresas analisadas este trimestre: Apple, Alphabet, Alibaba, Amazon, Baidu, Facebook, Lyft, Microsoft, Netflix, Tesla, Paypal, Samsung, Salesforce, Snap, Spotify, Square, Twitter, Tencent, Uber e Zoom. 

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