GAFAnomics Resultados [4º trimestre de 2019]

18 de Fev 2020

Neste GAFAnomics fazemos uma análise aos resultados do 4º trimestre de 2019 e aos principais movimentos estratégicos das empresas que lideram a Nova Economia. 

Nesta quarta edição, exploramos como a Nova Economia preparou o caminho para as novas regras de criação de valor, analisamos as grandes empresas tecnológicas e as suas estratégias de desenvolvimento. 

  • 2010-2020 foi uma década sob a hegemonia das empresas da Nova Economia; 
  • Ação climática: as empresas da Nova Economia estão a começar a tomar medidas, mas podem ir mais longe.

O setor de tecnologia teve o melhor desempenho no último trimestre de 2019

O setor da Tecnologia cresceu 19% em bolsa, sendo o mais atraente para os investidores. Com um crescimento de +19% durante o último trimestre de 2019, passa à frente do mercado da saúde (+12%) ou telecomunicações (+8%). O desempenho das empresas da Nova Economia ficou confirmado: durante 1 ano, o valor das ações destes players aumentou em 42%, destacando a indústria tecnológica de todas as outras indústrias – saúde, energia ou banca, por exemplo.

“A capitalização bolsista das 20 empresas da nova economia, que analisámos, cresceu 1,3 biliões de dólares, só no último trimestre de 2019, o equivalente ao PIB da Espanha ou à capitalização bolsista da Microsoft.”


Jean-Christophe Liaubet, Managing Partner, Fabernovel

No top: A Tesla continua imparável

Pela segunda vez consecutiva, a Tesla apresentou lucro. Este resultado é ainda mais notável dado que a empresa liderada por Elon Musk não investiu em publicidade. A Tesla fabricou 110 mil automóveis, o que representa um crescimento de 23% na produção, graças à nova fábrica da Tesla, em Xangai, onde já foram produzidos os primeiros Model 3.
Em novembro, Elon Musk anunciou o lançamento da pickup elétrica, Tesla Cybertruck, que seduziu o público, apesar de os analistas financeiros acreditarem que este é um produto de nicho. A Tesla anunciou que já foram feitas 150.000 pré-reservas e é esperado que as primeiras vendas comecem no final de 2021. Consequentemente, o valor das ações da empresa duplicaram no espaço de 3 meses.

A surpresa: Foi o melhor trimestre de sempre da Apple

No 4º trimestre de 2019, a Apple apresentou uma receita recorde de 91,8 mil milhões de dólares, um crescimento de 9% em relação ao 4º trimestre de 2018.

Apesar de ter vendido menos iPhones nos últimos anos (-14% de receitas em 2019), o lançamento do iPhone 11, a um preço mais acessível do que o de modelos anteriores, impulsionou o crescimento das vendas no último trimestre. O iPhone, que representa cerca de 60% da receita global da Apple, mostrou-se resiliente com uma receita de 56 mil milhões de dólares no 4º trimestre de 2019 (+7,6%). Além disso, o segmento de wearables, objetos domésticos conectados e acessórios da Apple (Apple Watch, AirPods, etc.), ultrapassou os 10 mil milhões de dólares em receitas, um aumento de 37%. Quanto aos serviços (App Store, Apple Music, Apple Pay, Apple TV+, etc.), atingiram uma receita recorde de 12,7 mil milhões de dólares (+17%).

O flop: Alphabet desilude os analistas 

A Alphabet, a holding que detém a Google, ficou aquém das expectativas dos analistas, apresentando uma receita de 46,1 mil milhões de dólares no 4º trimestre de 2019. A receita de publicidade da Google cresceu 17%, mas registou um abrandamento. A Google está à procura de novos motores de crescimento a longo prazo (cloud, serviços de saúde, serviços financeiros) que exigem um grande investimento de capital e isso refletiu-se na margem de lucro da empresa, que passou de 24%, no 4º trimestre de 2017, para 20%, no 4º trimestre de 2019. Tipicamente, o mercado é mais sensível a uma redução na margem de lucro do que em compreender a visão de longo de prazo da Google. No entanto, os resultados da Alphabet limitaram os “danos” e as ações desceram apenas 4%.

“Pela primeira vez, a Alphabet divulgou novos indicadores, incluindo as receitas do Youtube e do negócio cloud, com o objetivo de tranquilizar certos investidores face ao desempenho “dececionante” da Google. Na verdade, estes novos indicadores permitiram à Alphabet ilustrar o crescimento fenomenal do Youtube, que se estima que passou de uma receita de 11,2 mil milhões de dólares em 2018, para 15,2 mil milhões de dólares em 2019, ou seja, um crescimento de 36%. Se o Youtube representa apenas 9% das receitas, este crescimento impressionante ilustra um serviço com forte potencial, como apontou Sundar Pichai, CEO do Google”.


Jérémy Taïeb, Analista Financeiro na Fabernovel

“O mundo financeiro deve integrar novos indicadores. Além dos novos indicadores divulgados pela Amazon e pela Alphabet, o CEO do Netflix, Reed Hastings, disse ao New York Times que o número de subscritores não é representativo e que deve dar lugar ao tempo de visualização, o melhor indicador sobre o envolvimento dos subscritores.”

 
Agathe Martin, Analista Financeira na Fabernovel

2010-2020: uma década sob a hegemonia das empresas da Nova Economia

Há dez anos, estavam apenas 2 empresas de tecnologia no top 10 de empresas com maior capitalização bolsistas: a Microsoft e a Amazon. Passados 10 anos, são juntam-se a estas duas mais 6 empresas tecnológicas: Apple, Alphabet, Facebook, Alibaba, Tencent e Visa.

Durante este período, os GAFA, mais concretamente a Google e a Microsoft,  multiplicaram o preço das suas ações por 6 e a Amazon por 20, registando um crescimento da receita. No entanto, estes 2 valores não estão correlacionados. A receita do Facebook cresceu mais rápido do que o preço das suas ações devido a sucessivos escândalos e, provavelmente, à sobrevalorização do IPO. Por outro lado, a Microsoft multiplicou o valor das suas acções por 6 e multiplicou por 2 as suas receitas, o que ilustra a confiança dos investidores na recente evolução do seu modelo de negócio (ligada aos serviços).

A última década tem sido o cenário da revolução do Cloud Computing nas empresas. Embora a cloud remonte aos anos 2000, descolou, claramente, no ano de 2010. Com uma infraestrutura de IT mais segura, escalável e poderosa, ao mesmo tempo flexível e com custos mais baixos, a Cloud revolucionou a forma como as empresas guardam e organizam a sua informação. A Microsoft, com 44 mil milhões de dólares (+21%) de acordo com as nossas estimativas, e a Amazon, com 35 mil milhões de dólares (+36%), são os dois principais players no mercado cloud. No entanto, também a Google está a investir massivamente no Cloud Computing, apresentando um crescimento de 53% para uma receita de 9 mil milhões de dólares em 2019.

Entre 2010 e 2020, assistimos também a uma “guerra” de interfaces. O mobile tornou-se a interface dominante com 3,5 mil milhões de utilizadores, permitindo à Apple e à Google um posicionamento estratégico. No entanto, outras interfaces surgiram, suportadas pela interação por voz e pelas tecnologias de Realidade Aumentada e Realidade Virtual, permitindo que outras empresas da Nova Economia, como o Facebook ou a Amazon, sejam, talvez, as plataformas que vão dominar o futuro.

As empresas da Nova Economia cresceram e, sobretudo, mudaram o dia a dia dos consumidores. No início de 2020, foram instaladas 390.030 Apps através das lojas de aplicações da Apple e da Google, em comparação com as 5.312 Apps instaladas em 2010. Em 2020, num minuto, na Internet, são vistos 4,5 milhões de vídeos no Youtube e são enviadas 41,6 milhões de mensagens no WhatsApp e no Facebook Messenger. Em ambos os casos, em 2010, eram menos de 1 milhão. Esta utilização tecnológica massiva pode ser questionável dada a crescente preocupação em relação à sustentabilidade.

Ação climática: as empresas da Nova Economia estão a começar a tomar medidas, mas podem ir mais longe

Antes da ativista Greta Thunberg e da sua geração ter escolhido uma carreira, já a tecnologia tinha começado a ser considerada a nova banca. Os jovens licenciados têm de se destacar para se juntarem à Google ou ao Facebook, assim como em 2009 tinham de o fazer para integrar a Société Générale (empresa de serviços financeiros francesa) ou a Goldman Sachs. 

De um ponto de vista global, o desempenho financeiro (receitas) no 4º trimestre de 2019 das empresas da Nova Economia foi bom e ficou marcado por uma maior consciencialização para as questões éticas (ambientais, sociais e de liderança). O Facebook investiu nos talentos e colocou 1.000 engenheiros a trabalhar na questão da privacidade. A Microsoft anunciou um plano, extremamente detalhado, para eliminar as emissões de carbono até 2030, enquanto a Amazon quer cumprir este objetivo até 2040.

E a verdade é que o tempo está a esgotar-se para o sector da tecnologia. Embora os GAFA nos tenham permitido reduzir o consumo de papel e de outros materiais, como o CD-rom, a sua pegada ambiental não passa despercebida. Pelo contrário, a tecnologia é hoje responsável por 4% das emissões de gases de efeito estufa, em comparação com 2,8% do tráfego aéreo, segundo as estimativas do think tank da The Shift Project. 

Em 2012, quando a Greenpeace divulgou o relatório “How clean is your cloud” alertando para o consumo de energia dos GAFA, a Apple rapidamente reagiu e comprometeu-se a fazer uma transição para fontes de energia renováveis até ao fim do ano. As restantes empresas dos GAFA também assumiram a liderança e anunciaram que até 2030 (à exceção da Amazon, que definiu 2040) o seu plano de consumo energético vai ser adaptado para minimizar o impacto das emissões no meio ambiente. 

Mas com a pressão dos consumidores, colaboradores e investidores, as medidas tomadas para reduzir as emissões relacionadas com os âmbitos 1 e 2 do Protocolo GHG (emissões diretamente relacionadas com o modelo de negócio) já não são suficientes. As empresas da Nova Economia devem agir em toda a sua cadeia de valor (âmbito 3 do protocolo). Começam a surgir iniciativas, como o Supplier Clean Energy Program da Apple, em que os fornecedores se comprometem a fabricar produtos a partir de energia renovável (44 fornecedores já aderiram). No caso da Facebook, 50% dos colaboradores de Menlo Park (Califórnia) desloca-se através de meios de transporte alternativos, em vez de viajarem sozinhos.

Para eliminar as emissões de carbono em 2030, a Microsoft parece estar a inovar e a querer mostrar o caminho, abrangendo toda a sua cadeia de valor (dos fornecedores aos clientes, ou seja, âmbito 3), e não recorre aos mecanismos tradicionais de compensação. Por outras palavras, a ambição da empresa é eliminar as emissões diretas e indiretas de CO2.

Apesar de serem medidas algo radicais, o investimento nesta área ainda aparenta ficar aquém, tendo em conta a capacidade financeira das empresas da Nova Economia. As cinco empresas juntas – Google, Amazon, Facebook, Apple e Microsoft – somaram 72 mil milhões de dólares em 2019, enquanto o orçamento da EPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos), por si só, tem sido uma média de 8 mil milhões de dólares por ano, desde 2001.

O modelo de negócio é, de facto, o verdadeiro problema. Como plataformas, a proposta de valor destas empresas aumenta à medida que a sua quota de mercado e utilização também aumentam – o que FABERNOVEL identificou nos estudos GAFAnomics® como “Value Loop”

Por outras palavras, o hiperconsumo e o crescente tempo de utilização dos clientes, torna os GAFA bem sucedidos, o que não os encoraja a agir de outra forma. Mas a responsabilidade é partilhada entre todos os protagonistas repleta de contradições: os investidores exigem rentabilidade a curto prazo e, ao mesmo tempo, que se cumpram critérios cada vez mais rigorosos de responsabilidade ambiental e social. Os colaboradores exigem mais responsabilidade dos seus empregadores, mas nem sempre estão dispostos a comprometer o seu nível de vida.  E, finalmente, os consumidores querem consumir de forma mais responsável, mas continuam viciados nos vários ecrãs.

Os GAFA têm a responsabilidade de criar um novo equilíbrio: integrar o design responsável no design dos seus produtos e serviços, reinvestir uma parte crescente dos lucros em iniciativas ambientais e, sobretudo, informar e educar sobre o impacto do seu consumo… quem sabe o impacto que representa ver um filme em HD no Netflix?. Existem muitas iniciativas que podem ser tomadas.

*Empresas analisadas este trimestre: Apple, Microsoft, Samsung, Alphabet, Tesla, Salesforce, Snap, Baidu, Spotify, Lyft, Square, Zoom, Twitter, Paypal, Netflix, Uber, Amazon, Tencent.

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